terça-feira, 30 de setembro de 2008

Oh Wonder ... Oh Brave New World:

"Oh wonder, how many goodly creatures are there here, how beautious mankind is, oh Brave New World that has such people in it."

Quando você acorda, e olha para fora, através da janela, o que você vê te satisfaz? Quando você está andando na rua, ou andando sobre rodas na rua, ou apertado dentro de um ônibus e olha em volta, o que você vê te satisfaz? Quando você puxa o ar para dentro do seu pulmão e sente o gosto amargo do ar sujo na boca, você se sente bem? Todo dia você é roubado pelas financeiras (bancos, cartões de créditos, gente que pratica juros infernais, usura), e engole um monte de propaganda através dos jorros fecais da sua televisão... você não acha muito legal ler e não se incomoda com isso, mas alguma vez já parou para pensar? Você parou para pensar no significado de responsabilidade? Você talvez tenha alguma consciência, se sinta preocupado com o degelo das calotas polares, mas na verdade nunca parou para calcular as conseqüências mais profundas dos seus atos... você é hipócrita. Você não faz nada para ajudar e acha que tem direito a tudo, você é um deus carnívoro que tem direito a tudo, afinal você trabalha e paga tanto imposto não é mesmo?! Você pode, você é o fodão, você é também um coitado, trabalhador, que entregou a vida e mais em troca de um salário fixo, e é também um burro, nem sabia que o que eles te pagavam era uma merreca ... ou sabia e fingia não se importar. Sua covardia em mudar o ambiente onde você vive nasce da covardia em mudar você mesmo, suas idéias, você não abre os olhos... 

Imagine uma pedra jogada num lago, imagine as ondinhas de marola que são projetadas a partir do ponto de impacto, onde a pedra furou a superfície da água. Todas as suas ações são pedras jogadas nesse lago, a marola é a conseqüência, e todos nós estamos dentro desse lago... 

...alguns boiando (bancos, políticos, celebridades e toda a sorte de gente que compõem a "elite" da nossa sociedade globalizada), outros estão boiando com certa dificuldade, se esforçando para se segurar em bóias, mas a maioria, a grande e infeliz maioria está afundando bem devagar, jogada no escuro das águas turvas do lago, porque simplesmente não quis saber o que estava acontecendo enquanto você simplesmente vai pagando as suas continhas e se preocupa com o modelo de celular que vai comprar no natal...

A marola, do lago onde você está jogando pedras, pode te mostrar uma terrível verdade: tudo que vai, volta. Quando a água não tem pra onde reverberar mais no espaço e atinge a borda um movimento contrário é iniciado, e toda aquela água projetada pelo impacto na água ecoa para dentro, direto de volta para o seu ponto de partida.

Vivemos o prenúncio de uma completa distopia que se anuncia, e para ilustrar este ponto de vista, ponho à sua disposição um pouco de história literária (RS): 

Para ilustrar esse “protesto” contra a ignorância, me baseio livremente numa obra literária maravilhosa do genial Aldous Huxley, que se chama “O admirável mundo novo”. Recomendo fortemente sua leitura por todos que freqüentam este blog. Não se trata de uma leitura maçante, pelo contrário, é muito agradável e breve. Antes de deslizar linhas em torno do conteúdo do livro e da história, gostaria de me posicionar contra a inclusão desta obra na classificação de ficção científica, e vou abrir um novo gênero literário para todas as distopias, que vai se chamar “previsão pseudo-ficcional”. Pode parecer ridículo, mas quem não entender deve antes ler o livro, e depois apenas viver sua costumeira rotina para averiguar que esta nomenclatura se aplica perfeitamente a este tipo de obra. Continuando...

Admirável mundo novo trata de uma sociedade futurista, onde o Estado é onipresente e não existe a idéia do indivíduo, todos são parte de um grande esquema para manter a ordem e a estabilidade, que são obsessivamente preservadas como forma de controle social. Todos os traços emocionais das pessoas foram “apagados”, como forma de conter a paixão nos indivíduos, e de manter a ordem. Não existem coisas como família, casamento, e grandes grupos de gêmeos produzidos em laboratório compõem as classes trabalhadoras e as planejadoras desta sociedade. Todo tipo de individualidade é suprimida, e a promiscuidade é comum e incentivada. Numa orquestrada e milimetricamente planejada sociedade, grupos e grupos de gêmeos divididos em castas convivem harmoniosamente, condicionados desde bebês a aceitar sua condição, e sempre protegidos pelo libertador SOMA. 

Aldous Huxley, comprovadamente, não é o precursor das distopias literárias, antes de “O Admirável mundo novo”, Yevgeny Zamyatin escreve “Nós”, obra que talvez seja a primeira do gênero. De qualquer forma, o seu livro é o mais citado e aclamado, e talvez, o mais conhecido, junto com “1984” de George Orwell. 

Compreender como estes autores, do começo do século XX, conceberam esses universos tão próximos à atual realidade das sociedades humanas é impossível. A precisão de detalhes presentes em suas “alegorias” é espantosa, e a crítica social se apresenta mais oportuna do que nunca. Se eles, há quase um século atrás, com o brilho de suas idéias e a clareza de suas mentes puderam nos exibir de forma tão lúcida esse caótico mundo, o que nós, como resultados desse futuro previsto, podemos fazer para evitar que toda a degradação seja ainda maior? 

Pensar numa sociedade sustentável é o verdadeiro dilema? Você consegue ter fé na recuperação do espírito humano? Você acredita no retorno às leis da natureza, numa sociedade onde a morte é respeitada como elemento da vida? Onde a natureza é o ambiente primordial da experiência humana, e não apenas a fonte de recursos para mover a economia?  Encontrar todas essas respostas é fundamental para continuação da nossa existência, não dessa forma torpe, mas de um modo digno e justo para todos .

Encontre os seus deuses, crie as suas artes, viva do seu jeito, mas com responsabilidade. Todas as suas ações reverberam no espaço-tempo, e o que estamos reverberando hoje não é benéfico.

Créditos: 

No cabeçalho, trechos de uma fala de Miranda, do livro de Shakespeare “A Tempestade”, apontado como inspiração para o livro de Aldous Huxley. 

A capa do CD do Iron é a figura perfeita para ilustrar o texto. 

Pessanha e eu estávamos conversando no msn e esse assunto surgiu. Espero aquele convite pra tomar umas no bar, e conversar mais sobre essa porra toda. 

E, depois do toque muito bem dado, devo com certeza agradecer à Amarilis, que com a sua consciência de mil anos me emprestou este livro e tantos outros, que construíram os alicerces de uma filosofia que está em crescimento. Fala ae Má ... vc é foda ... valeu ... 

Esse tema é bem recorrente na minha cabeça, muito provavelmente eu vou falar mais de distopia aqui. Tem um monte de livros e filmes ótimos sobre isso. As semelhanças com o nosso mundinho de hoje são tantas que até assustam.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

TORTA DE MAÇA ESFRIANDO NA JANELA

Torta de Maçã Esfriando na Janela: ( 1ª Parte )

 

Madalena deixou sua torta de maçã para esfriar na brisa da janela. A cozinha toda perfumada pelo leve aroma quente. Suas mãos macias deslizam pelos versos de um livro velho, sentada à mesa da cozinha simples e bebericando seu vinho doce Madalena aguarda o pôr do sol. O bebê brinca na varanda, de pele rosa, poucos dentes e cabelo amarelo. Suas roupinhas balançando no varal, secando trêmulas sob a luz dos últimos raios do sol. Como flâmulas da paz e do conforto daquela tarde quente e agradável.

O cheiro doce do sabão, da torta na janela e do vinho. O calor suave entrando pela porta, as folhas caindo no quintal super verde, de grama rasteira e flores em formato de botões. O telefone toca ... três toques precisos, Madalena corre para atender. Dois minutos silenciosos, segurando o fone, só ouvindo. Era o marido. Ele a ama, está chegando e não demora. Ele a ama todos os dias, segura forte na sua mão, beija a sua testa e pede benção de manhã. Ele gosta de dormir com o bebê na varanda todo domingo.  Leva o bebê sábado à noite para a casa da mãe e depois busca Madalena, já pronta e bonita, com o carro velho e simples e quase quebrado.

Eles descem todas as ladeiras e sobem colinas no sábado à noite, cheirosos e lindos nas suas roupas de baile, roupas velhas, lavadas muitas vezes em sabão barato. Felizes num baile de uma noite de sábado.

Ele dança com ela até o amor acabar, mas o amor não acaba. Juntos e grudados, as mãos dele nos quadris dela, apertando de leve com os dedos. Não bêbados, mas altos e felizes. Ele a leva de volta pra casa, tomam banho juntos, comem alguma coisa boa.

Eles vão pra cama, no quarto apertado do andar de cima, passam a madrugada juntos.

De manhã, no domingo, eles buscam o bebê, sorrisos gigantes, não brancos demais, mas grandes e iluminados. O bebê está sempre bem, sempre rosa e com poucos dentes e cabelos, sempre estendendo bracinhos roliços. Ameaça andar e já resmunga bastante.

Em casa, uma comida boa e fumegante fica pronta. É servida pontualmente ao meio-dia e todos comem devagar.

Ao redor da mesa, essas pessoas boas e simples, o casal e o bebê do cadeirão, são de pouco falar, mas de olhares ternos. Alheios ao caos e aos vizinhos automáticos, viciados nos jorros de suas televisões, em suas salas grandes de paredes emputrecidas de fumaça de cigarro. Todo mundo olha para eles na rua, no curto caminho entre a vizinhança e a igreja, quando todos vão à missa no domingo de tarde. Ninguém entende nada. Ninguém entende o caminhar sereno deles, ninguém entende o porquê de tantas risadinhas.

Para os vizinhos ensurdecidos pela TV o casal parece bobo, o bebê parece sujo demais e incrivelmente feliz. Uma dona de casa e um motorista que passa metade da semana fora. Ela sempre busca a correspondência com o avental sujo de poupa de frutas que usa para fazer geléia. Geléias ? Por Deus. Parece tão estranho. Tão mamífero. Ele sempre cumprimenta quem vê na rua, carregando o leite numa mão e o jornal do dia anterior na outra. Sempre está atrasado para chegar em casa. Ele sempre anda muito rápido para chegar em casa e ninguém entende. O que tem a ver ? Um sujeito desses, motorista de mãos grossas e sorriso bobo, correndo para chegar em casa. Deus, ninguém entende nada ...

 

Para ler ouvindo: Madeleine Peyroux – Half the Perfect World.( TACA NO YOUTUBE )

 

... TOP OF THE HIGHEST HIGH RISE ...

A idéia inicial desse blog era a postagem meio que semanal de contos, de autoria minha e de alguns amigos. Pessoas que, colocadas juntas pela vida e por Deus ou sei lá o que, compartilham de idéias lindas e propositalmente cafonas sobre o mundo onde a gente gostaria de morar. O nome do blog, escolhido a dedo e pessoalmente, veio direto de uma letra do Incubus, de uma música chamada “The Warmth”. Logo nos primeiros versos dessa letra muito bem composta e blá blá blá ... o Brandon diz assim: 

I’d like to close my eyes go numb …

But there’s a cold wind coming from…

The top of the highest high rise today…

It’s not a breeze cuz it blows hard … 

( Ouça e Veja The Warmth: http://www.youtube.com/watch?v=J0ZRvxDrOxo ) 

Odeio ser piegas, e com muita freqüência o sou, mas é evidente que dentro de cada um, e pra mim a letra está falando disso, existe uma inquietação, uma agitação louca pra cacete, dentro de cada um existe uma vontade imensa de ser o que se tem vontade de ser, e somente isso. No entanto, lá fora tem um mundão bem grandão, que todo mundo só conhece por foto, e faz questão de dizer que respeita. A verdade, é que, a todo momento, paredes estão sendo erguidas para conter essa brisa leve que corre dentro de cada um de nós, e que vivemos numa organização que não é feita para o estímulo do espírito. Pelo contrário, todas as sensações humanas estão sendo suprimidas e reprimidas em detrimento de valores alheios à nossa condição natural. E agora, para ilustrar, enfeitar, e encher de louros a minha tese, eu me vejo na honra de apresentar-lhes um legítimo Bukowski, para a sua apreciação: 

To end up alone
in a tomb of a room
without cigarettes
or wine 
just a lightbulb
and a potbelly,
gray-haired,
and glad to have
the room.

... in the morning
they're out there
making money:
judges, carpenters,
plumbers, doctors,
newsboys, policemen,
barbers, carwashers,
dentists, florists,
waitresses, cooks,
cabdrivers...

and you turns over
to your left side
to get the sun
on your back
and out
of your eyes. 

( Conheça Charles Bukowski: http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Bukowski ) 

Esse poema simples e lindo do Bukowski exibe diretamente com muita luz o ângulo do dilema que nos assola * NA MINHA OPINIÃO * ... eu odeio parecer sério, e quem me conhece sabe que eu não sou.

Não tenho pretensões mirabolantes com os escritos que eu vou postar aqui, além de causar um sorriso de canto de boca, uma risada, uma reflexão ou qualquer mínima reação em vocês, meus amigos, gente que eu amo, e que são inspiradores e colaboradores dos meus planos e das minhas aspirações. 

Nesse mundo sem amor e sem calor, precisamos da brisa que vem lá do alto, precisamos da arte e da música, precisamos quebrar os nossos blocos mentais e sermos verdadeiramente livres. 

P.S.: Eu adoro essa foto, parece indignação ? Parece ... 

P.S.2: Espero, com o tempo, melhorar o meu estilo e também aprender a configurar essa página de um jeito mais firmeza, pq os templates do blogger são muito zuados...