terça-feira, 21 de outubro de 2008

Carta ao silêncio ...

O barulho da TV e de gente falando sufocam o som das batidas do meu coração. Agora eu só posso ouvi-lo tampando os ouvidos e fechando os meus olhos. Eu olho para mim mesmo. O peso de mil homens faz os meus músculos doerem, meu corpo range. Estou aflito.

Acima de mim um pássaro negro projeta sua sombra sobre a minha cabeça e sobre o meu corpo, bloqueando toda a luz com as suas asas de dois metros. Meu queixo está amarrado ao chão, forçando meu olhar na direção da areia. A corda não é grossa o suficiente para me manter preso nessa posição por muito tempo, mas eu tenho medo do ferimento que pode me libertar, tenho medo de olhar para cima. Tenho apreço demais pela minha carne, pela minha vaidade.

Meu corpo, submetido há anos de engorda farta, é forte, mas não conhece habilidades que o movam e o façam veículo da consciência que carrega. 

Eu tento ouvir as batidas do meu coração, eu quero ouvir o pulsar, mas o que eu ouço é um sopro... 

Eu quero ouvir o tambor debaixo das minhas costelas, mas tanta gente e tanto barulho o sufocam. 

Minha memória, mesmo afetada pela embriaguez de uma vida dedicada à futilidade, é o único registro verdadeiro que carrego sobre mim. Todo o resto é mentira, tudo é o GRANDE VAZIO. Eu renego as fotos tiradas, renego a quilometragem rodada e as garrafas vazias empilhadas. 

Eu quis amar demais, e quis que todo o amor pudesse ecoar de volta para mim. E agora eu abro a minha janela e posso traçar um caminho direto para esse amor. Mas, diante de tão forte luz eu me sinto cego e com medo, como se estivesse novamente mergulhado nas trevas mais sombrias. 

Eu quero ouvir o tambor debaixo das minhas costelas, mas tanto barulho não deixa... 

Se os meus pés me fizessem caminhar nas alturas das nuvens mais cremosas eu olharia para baixo e saberia que eu não era Deus.

Se os meus pés me fizessem caminhar nas alturas das nuvens mais cremosas, talvez eu nem descesse de lá ... 

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Bêbados

Nos melhores e piores momentos da minha infância/adolescência -  período que na minha opinião se prolonga até hoje, talvez pela minha falta de vergonha na cara - o álcool foi o grande companheiro, e foi muitas vezes, o gatilho de algumas coisas que eu fiz. De algumas eu me arrependo, de outras me orgulho. 
Nesses momentos, estavam comigo algumas das pessoas que eu mais amo, e posso dizer hoje que são parte da minha breve vida. Em homenagem a essas pessoas, e a tudo que até hoje vivemos, eu escrevi esse "poeminha" bem simples e que eu espero que agrade a todos. Com certeza, em algum verso mora uma lembrança de algo que você tenha feito, ou viu alguém fazendo. 

Pra não ficar aquela chatice no fim do post, já vou logo agradecendo a todo o pessoal que me acompanhava sábados a fio no Tico's Rock Bar, aquela foi a época do BOMBEIRINHO DE UM REAL ... Amarílis e eu estamos vivos pra contar aquelas histórias, e outros amigos também, saibam que todos vocês valem ouro ( Vinícius, Shirley, Leandro, Fernando, Mayana, Celso, Kurt, Tony, Slash, Diogo, Boina e tantos outros )!

Bêbados 

Bêbados cantam

Bêbados gritam

Bêbados choram como viúvas

Bêbados dormem encolhidos como bebês

 

Bêbados vomitam

Bêbados vão ao extremo

Bêbados choram como viúvas

Bêbados dormem encolhidos como bebês

 

Bêbados celebram

Bêbados dão carona a qualquer um

Bêbados andam de quatro como cães

Bêbados não sabem mentir

 

Bêbados compõem

Bêbados recitam

Bêbados andam de quatro como cães

Bêbados não sabem mentir

 

Bêbados são auto-piedosos

Bêbados são flagelos da estabilidade

Bêbados conversam entre si

Bêbados dão as boas vindas a todos

 

Bêbados vão aonde são levados

Bêbados aparecem do nada

Bêbados são felizes

Bêbados são tristes


Ilustração: Charles Bukowski, o mais célebre dos bêbados.