sexta-feira, 12 de setembro de 2008

TORTA DE MAÇA ESFRIANDO NA JANELA

Torta de Maçã Esfriando na Janela: ( 1ª Parte )

 

Madalena deixou sua torta de maçã para esfriar na brisa da janela. A cozinha toda perfumada pelo leve aroma quente. Suas mãos macias deslizam pelos versos de um livro velho, sentada à mesa da cozinha simples e bebericando seu vinho doce Madalena aguarda o pôr do sol. O bebê brinca na varanda, de pele rosa, poucos dentes e cabelo amarelo. Suas roupinhas balançando no varal, secando trêmulas sob a luz dos últimos raios do sol. Como flâmulas da paz e do conforto daquela tarde quente e agradável.

O cheiro doce do sabão, da torta na janela e do vinho. O calor suave entrando pela porta, as folhas caindo no quintal super verde, de grama rasteira e flores em formato de botões. O telefone toca ... três toques precisos, Madalena corre para atender. Dois minutos silenciosos, segurando o fone, só ouvindo. Era o marido. Ele a ama, está chegando e não demora. Ele a ama todos os dias, segura forte na sua mão, beija a sua testa e pede benção de manhã. Ele gosta de dormir com o bebê na varanda todo domingo.  Leva o bebê sábado à noite para a casa da mãe e depois busca Madalena, já pronta e bonita, com o carro velho e simples e quase quebrado.

Eles descem todas as ladeiras e sobem colinas no sábado à noite, cheirosos e lindos nas suas roupas de baile, roupas velhas, lavadas muitas vezes em sabão barato. Felizes num baile de uma noite de sábado.

Ele dança com ela até o amor acabar, mas o amor não acaba. Juntos e grudados, as mãos dele nos quadris dela, apertando de leve com os dedos. Não bêbados, mas altos e felizes. Ele a leva de volta pra casa, tomam banho juntos, comem alguma coisa boa.

Eles vão pra cama, no quarto apertado do andar de cima, passam a madrugada juntos.

De manhã, no domingo, eles buscam o bebê, sorrisos gigantes, não brancos demais, mas grandes e iluminados. O bebê está sempre bem, sempre rosa e com poucos dentes e cabelos, sempre estendendo bracinhos roliços. Ameaça andar e já resmunga bastante.

Em casa, uma comida boa e fumegante fica pronta. É servida pontualmente ao meio-dia e todos comem devagar.

Ao redor da mesa, essas pessoas boas e simples, o casal e o bebê do cadeirão, são de pouco falar, mas de olhares ternos. Alheios ao caos e aos vizinhos automáticos, viciados nos jorros de suas televisões, em suas salas grandes de paredes emputrecidas de fumaça de cigarro. Todo mundo olha para eles na rua, no curto caminho entre a vizinhança e a igreja, quando todos vão à missa no domingo de tarde. Ninguém entende nada. Ninguém entende o caminhar sereno deles, ninguém entende o porquê de tantas risadinhas.

Para os vizinhos ensurdecidos pela TV o casal parece bobo, o bebê parece sujo demais e incrivelmente feliz. Uma dona de casa e um motorista que passa metade da semana fora. Ela sempre busca a correspondência com o avental sujo de poupa de frutas que usa para fazer geléia. Geléias ? Por Deus. Parece tão estranho. Tão mamífero. Ele sempre cumprimenta quem vê na rua, carregando o leite numa mão e o jornal do dia anterior na outra. Sempre está atrasado para chegar em casa. Ele sempre anda muito rápido para chegar em casa e ninguém entende. O que tem a ver ? Um sujeito desses, motorista de mãos grossas e sorriso bobo, correndo para chegar em casa. Deus, ninguém entende nada ...

 

Para ler ouvindo: Madeleine Peyroux – Half the Perfect World.( TACA NO YOUTUBE )

 

2 comentários:

Anônimo disse...

Esse texto é seu?
muito bom cara

"J" disse...

Nhaaaa ... é meo ... brigado cara!